
Muita gente não entendeu – eu inclusive – quando a rede de academias de ginástica Bodytech foi comprada por Alexandre Accioli, que resolveu marcar a aquisição adicionando um “A!” no nome e no logotipo da empresa. Sim, uma letra A com um ponto de excalamação, no meio – ou meio por trás, sei lá – da palavra Bodytech. Total non-sense. Imagino que os leitores de fora do Rio devam estar tentando vislumbrar do que se trata tal estabelecimento: trata-se do templo da malhação da classe-média alta, meca da juventude marombada carioca, ao mesmo tempo símbolo de status e microcosmo social, onde os jovens passam suas tardes – algumas gostosas desocupadas passam o dia inteiro – e os economicamente ativos batem ponto à noite. Um lugar tão querido pelos malhadores abastados quanto o Joe & Leos é para os aficcionados em hamburgures. Hamburgures na Bodytech aliás, só de soja. Ou de glúten. (ou glúteos? putz, às vezes o professor de spinning vem com essas palavras difíceis e eu não entendo xongas)..
Mas enfim, o fato é que a locomotiva sócio-empresarial resolveu grifar uma letra A no nome de sua mais nova cria. “A” de “Classe A”? Talvez. Será? Desde pequenos nos acostumamos a ver as pessoas que tem nomes começados com a letra A serem os primeiros da chamada, os primeiros a sair para o recreio, os primeiros a recebera prova corrigida. Para uma criança, ter um nome começado com A é ser vip, é ter primeiro, fazer primeiro. Seria então um maquiavélico plano de marketing, tentando incutir na (pequena) cabeça de seu público alvo a associação entre a letra A e a condição de “vip”, de “privilegiado”? Quem sabe…
O que poucos atinam é que as razões para esta letra A carimbada no meio do logotipo são muito mais simples do que podem parecer. É “A” de Alexandre Accioli mesmo. Algo como uma marca pessoal, um selo de qualidade; ainda que para as pessoas que não façam parte de seu público tal empreitada pareça delírio ou marketing equivocado. Por trás do aparente non-sense há o aguçado tino comercial de quem conhece suas presas como ninguém. E antes que alguém o acuse de narcisista, adianto que é isso aí. Seja divulgando as movimentações de sua vida pessoal através de assessoria de imprensa, seja por conta de sua postura profissional e de sua maneira de levar adiante seus negócios, é inegável que Accioli seja narcisista. Ele se ama e se acha melhor do que os outros. E vende exatamente esta imagem, para narcisistas que se amam e se acham melhores do que os outros (ou que querem se amar e se achar, mas aí já são outros quinhentos). É a vitrine e o culto à imagem que ele vende em suas academias, seus restaurantes e seus eventos. Seja a imagem concreta de um corpo musculoso e com aparência saudável (sim, apararência, pois o consumo de aditivos e hormônios é muito maior do que já imaginamos), seja a imagem abstrata de alguém bem sucedido financeiramente e socialmente.
Ele quer que todas as pessoas que já eram sócias da Bodytech fiquem sabendo que agora aquilo tudo é dele, do Alexandre. Quer que todos os clientes de todas as outras academias saibam que agora existe a academia do Accioli, que é para onde convergirão (só para usar o atual verbo fetiche do mundo do marketing) todas as pessoas que se identificam com seu jeito de ser e viver. Algo como um grande Olho de Thundera vibrando luminoso no céu carioca, convocando todos para a aula de body pumping. Do mesmo jeito que os vendedores de Herbalife usam todos aqueles broches de “Perca peso, pergunte-me como”, Accioli tascou um broche com o símbolo-conceito de seu império no logo de sua nova academia. “Vista a camisa, use os produtos, seja um exemplo vivo do estilo de vida que você vende”; diz o texto institucional no site brasileiro da Herbalife. É um tipo de publicidade que alguns julgam equivocada, mas que funciona suficientemente para que se arrecade alguns milhões com essa multidão louca pra gastar dinheiro com a própria beleza (ou o próprio medo da morte ou da solidão, mas aí já são outros quinhentos). Os quinhentos que importam no momento são os cariocas que frequentam diariamente cada sala espelhada de cada Bodytech, para deleite de seu novo proprietário, que fica a cada dia ainda mais bonito e melhor do que os outros.



