Piscinão de São Conrado

By passoadiante

Hoje, por obra do acaso, finalmente entendi o conceito por trás do Piscinão de Ramos – que até então era para mim uma das mais inexplicáveis manifestações da estupidez humana. Estava eu na van, indo para o trabalho, no terço final da Av. Niemeyer, quando vislumbro novamente a praia de São Conrado (ou do Pepino, como quiserem), em toda sua beleza desperdiçada. Olhando de longe não dá pra perceber a sujeira na areia, tampouco o mau cheiro das línguas negras. Às vezes dá pra ver enormes manchas de esgoto na água, mas hoje não era este o caso. Hoje o espetáculo eram três ou quatro “piscininhas” que (provavelmente) a maré formou durante a noite. Dentro delas – rasinhas, água no máximo na altura dos joelhos – crianças e adultos numa grande farra, brincando ou apenas curtindo o bem bom de se estar numa poça de água suja sob o Sol do Rio de Janeiro. Da van era possível ver a coloração mais escura que a areia tomou na parte outrora seca, naquele momento absovendo aos poucos a água e filtrando as partículas de sujeira. Os piscinões de São Conrado também são democráticos: da garotada e das coléga cheias de blondor da Rocinha às mamães madames com seus filhinhos pequenos, ali todos são apenas cariocas nadando e sorrindo na água de cocô.

Com relação à filial de Ramos, construída pela mão do homem, nunca engoli a hipocrisia de terem preferido cavar uma poça pra nadar no mijo alheio do que lutar pela despoluição da praia. Pensava: “Qual é o sentido de se construir uma praia artificial em frente a uma praia natural”? Mas o que vi hoje em São Conrado me mostrou que, ao contrário do que eu imaginava, o Piscinão de Ramos não se justifica apenas pela insalubridade de se (sequer) encostar na água daquela praia, mas também – e sobretudo – pelo amor do carioca pela piscina. É isso! O carioca até adora uma praia, mas o que ele ama mesmo é uma piscina! Seja uma piscina Toni na laje, um poço de cloro no clube de classe média, um quadradinho de água na cobertura da Vieira Souto ou um buracão de água suja em Ramos ou em São Conrado! No caso dessas piscininhas feitas pela maré, trata-se exatamente da mesma água da praia, sem tirar nem pôr. Então não se tratava de uma opção à impossibilidade do mergulho no mar, e sim de uma das mais puras manifestações do “ser carioca”: divertir-se como pinto no lixo. Literalmente.

2 Respostas para “Piscinão de São Conrado”

  1. letícia Disse:

    meu pai tem uma amiga, Leila. óóótima. em qualquer conversa, fosse alguém falando que a vó mora não sei onde, ou o namorado vai passar ano novo numa casa assim assado, ela SEMPRE perguntava:
    “mas tem piscina?”

    hahahahahahaha

  2. Lia Disse:

    rsrs…. confesso que ri mto com esse texto. Porém, concordo perfeitamento com tudo que escreveu. Um viva para a estupidez humana! :)

    Feliz Natal :)

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